GEOSSÍTIO FRAGAS DE DEGOLADOS (PR3)
Neste geossítio aflora uma sucessão de litologias do Silúrico (Formação de Vale da Ursa), onde as camadas se dispõem sub-horizontalmente.
Na base da sequência ocorrem estratos metassilto-pelíticos maciços, com formas esferoidais, intercalados com camadas de xistos. Esta sucessão evolui verticalmente para uma sequência regressiva, iniciando-se com alternâncias de xistos e quartzitos e terminando em bancadas espessas de quartzitos.
Os afloramentos apresentam numerosas descontinuidades, tanto verticais como horizontais, resultantes das tensões acumuladas no maciço rochoso. Estas descontinuidades facilitam a infiltração da água da chuva, promovendo a alteração e desagregação progressiva das rochas — primeiro dos xistos e, posteriormente, das bancadas mais finas de quartzitos.
Devido à organização da sequência, a desagregação das litologias ocorre de baixo para cima, uma vez que os estratos mais finos são mais suscetíveis à alteração do que as bancadas espessas de quartzitos no topo.
Nas fases iniciais, formam-se zonas preferenciais de escoamento em profundidade, que se alargam progressivamente até atingirem a superfície. As zonas quartzíticas, mais resistentes, não são facilmente desagregadas, originando a formação de arcos sob os quais a água escoa. Com o tempo, estes arcos colapsam devido à ultrapassagem da sua resistência estrutural, originando movimentos rápidos de queda.
A modelação da paisagem continua até aos dias de hoje, sendo possível observar duas linhas de água bem marcadas, mais largas em profundidade do que à superfície, bem como fragmentos de quartzito nos seus leitos, resultantes desses colapsos.
Neste local observam-se bancadas arenosas de cor branca, com composição micácea, apresentando-se geralmente maciças e com fraca ou inexistente estratificação.
Associadas a estas bancadas ocorrem estruturas sedimentares como dobras sin-sedimentares, slumps e estruturas de escape de água.
Estas formações encontram-se na parte inferior de uma sequência regressiva da Formação de Vale da Ursa (Silúrico) e são interpretadas como resultantes de transporte em massa fluidizado, associado ao rápido degelo de glaciares.
Flora e fauna
Ao longo da rota do Carvoeiro destaca-se a presença de uma rara floresta de azereiros, espécie relicta das antigas florestas de laurissilva europeias.
Podem ainda observar-se outras espécies vegetais, como folhado, salgueiros, murta, urze roxa, urze lusitana, amieiro e sobreiro. Nas margens das ribeiras é frequente o feto-real, que pode atingir 2 a 3 metros de altura em condições favoráveis.
Em termos de fauna, destaca-se a presença da rã-ibérica, espécie endémica do noroeste da Península Ibérica. A avifauna inclui as três espécies de pica-pau existentes em Portugal (peto-verde, pica-pau-malhado-pequeno e pica-pau-malhado-grande), bem como a rara cegonha-preta e espécies mais comuns como a toutinegra-de-cabeça-preta.
Com alguma sorte, é possível avistar mamíferos como a corça e o esquilo, ou ainda o melro-azul em zonas rochosas.
Enquadramento geológico adicional
A região caracteriza-se por uma geologia diversificada, destacando-se as Dobras do Aziral e as estruturas sedimentares em “bola” de Balancho, associadas a movimentos glaciares ocorridos quando esta região se encontrava próxima do polo sul.
Salienta-se ainda a Fraga dos Degolados, cuja formação está igualmente relacionada com este enquadramento paleogeográfico, correspondente a um período em que a região integrava o hemisfério sul.
Outros pontos de interesse
Este geossítio integra ainda um ponto de interesse de geocaching, permitindo aos visitantes explorar o local de forma interativa e lúdica, promovendo simultaneamente o conhecimento do património natural.